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Crítica literária, as it were, III

24 Julho 2006


Há três tipos permanentes de crítica literária: a crítica literária as it is; a crítica literária as it should be; e a crítica literária as it were. Em português, recebem títulos respectivos: a crítica literária como lamentavelmente é; a crítica literária como nunca virá a ser; e a crítica literária, por assim dizer.

Comecemos pelo primeiro tipo nativo. A "crítica literária como lamentavelmente é" não é realmente crítica literária; é uma prática refém de redacções reféns de Castorleys sem o menor espírito criativo, sem o menor sentido das proporções, sem o menor talento, sem a menor energia, sem qualquer noção de gosto, e sem o escrúpulo da crítica literária as it should be. Escrúpulo? Sim. É preciso escrúpulo. Por isso, e porque a tendência é desfavorável – quer dizer, não favorece o escrúpulo, nem o gosto, nem o talento, nem espírito criativo, nem a energia – temos a categoria "como nunca virá a ser." "Nunca virá a ser," em parte, devido às qualidades momentâneas dos supostos críticos literários portugueses «em actividade» e, em parte, devido à mudrush of reading-matter em que a literatura, e sobretudo a portuguesa (incluindo a crítica, as it were), se transformou. Como assim?

Não: não é hora para explicações. Resta-nos fazer de conta que a crítica está viva e de boa saúde, enquanto ela morre de vez. E por isso, há esperança. As devidas excepções compreendem, e não se vêem lesadas, por esta descrição optimista.

Humberto Brito
24.7.06

Crítica literária, as it were, II

«Castorley flew higher. When his legacy freed him from 'hackwork', he became first a critic – in which calling he loyally scalped all his old associates as they came up – and then looked for some speciality. Having found it (Chaucer was the prey), he consolidated his position before he occupied it, by his careful speech, his cultivated bearing, and the whispered words of his friends whom he, too, had saved the trouble of thinking. It followed that, when he published his first serious articles on Chaucer, all the world which is interested in Chaucer said: 'This is an authority.' But he was no impostor.»

(...)

«At other times, [Manallace] would carry me off, once in a few weeks, to sit at Castorley's feet, and hear him talk about Chaucer. Castorley's voice, bad enough in youth when it could be shouted down, had, with culture and tact, grown almost insupportable. His mannerisms, too, had multiplied and set. He minced and mouthed, postured and chewed his words throughout those terrible evenings; and poisoned not only Chaucer, but every shred of English literature which he used to embellish him. He was shameless, too, as regarded self-advertisement and 'recognition' – weaving elaborate intrigues; forming petty friendships and confederacies, to be dissolved next week in favour of more promissing alliances; (...)»

R. Kipling, Dayspring Mishandled, Limits and Renewals

Humberto Brito
24.7.06

Duas sem três

Certas coisas, como por vezes pedir desculpa, não resultam duas vezes. No entanto, é preciso voltar a falar sobre a dieta do meu pet. Quem veio antes já sabe que o meu pet come o meu lixo; é para isso que ele serve. É para isso que o mantenho. Mas está a ficar gordo. Ele hoje comeu três posts de uma só vez. Só sobrou isto: (...); pet droppings. Falando nisso, aí vem ele – querem ver o último truque?

– Pet? Peeeet? Vem ao dono, vem! Lindo menino... Rebola, vá. Senta, senta. Isso! Agora diz qualquer coisa, diz.
Namastê!

Humberto Brito
24.7.06

Hoje acordei assim

21 Julho 2006




Maria I de Inglaterra, por Antonius Mor
aka Bloody Mary

Humberto Brito
21.7.06

'He is human, not a god.'

10 Julho 2006




"Porquoi, Zizou?" Alain Migliaccio, agente do ex-futebolista Zinedine Zidane, depois de afirmar que este "é apenas humano, e não um deus," reportou à imprensa mundial interessada que, se bem o conhece, o último nunca abrirá a boca para revelar a provocação de Materazzi, que deu naquilo que metade do mundo sabe, mas não sabe explicar. Apesar da final da copa do mundo, ZZ era a atracção principal da noite de 9 de Julho de 2006 para todos os não italianos, e talvez também para alguns italianos amantes de futebol. Era no fundo a final de Zidane – a coroação. Numa selecção em que chamar-lhes um elenco de imigrantes, como se isso fosse valor acrescido, como se futebol fosse política, é notoriamente francês, Zizou o magrebino, o calvo, o menino pobre de Marselha, o expiador da Europa, era o alvo de todas as atenções.

Dias antes, ao entrar em campo contra a selecção portuguesa, há um grande plano de Zidane e Luís Figo – e o meu calvinista ficou desolado. O vencedor está do outro lado, pensei (coisas que o cinema ensina) e não havia dúvida: os nossos não chegariam à final. Tristemente, assim foi. A razão do meu desalento prematuro, mas premonitório, foi a maneira troiana do magrebino, sem igual entre os homens. As mulheres dizem que é elegância, mas é nobreza de espírito. A palavra realmente é majestade – majestade moral. Aquilo não é sexy, é virtude, no sentido mais antigo. E é curioso, e bom sinal, que numa sociedade pós-moderna a virtude de Zidane seja unanimemente reconhecida. Por isso que, no último domingo, metade do mundo se chocou ao vê-lo cair em desgraça. "Porquoi, Zizou?"

Segundo as regras do futebol, a agressão a Materazzi foi perfeitamente corrigida. Zidane é expulso, não é por isso que a França perde o jogo, mas é por ter sido expulso, e por França sair derrotada, que o seu agente o encontrou desolado, horas depois, no quarto do hotel de Berlim onde se hospedava the bleus’ blues. Zinedine Zidane nunca abrirá a boca para explicar o motivo da agressão; Materazzi a caminho de Roma não sabemos o que faria; mas ao contrário do que se pensa, Zizou não perdeu a cabeça. Aquilo não foi inane. O golpe foi premeditado, consciente e frio; não visava o crânio, mas o tórax; não queria sangue, mas respeito. E além disso foi bem executado, aliás bonito. O balanço parecia coreografado, e só de pensar que Zidane sabia exactamente o que estava a fazer, e como fazê-lo, temos o maior exemplo da sua virtude.

Os franceses e a maioria dos não franceses perguntam porquê – e logo tu, Zizou, nosso bom magrebino! Parece estúpido dele. Naqueles vinte segundos, qualquer fraco dominar-se-ia, ou melhor seria dominado pelas expectativas de um país inteiro e pela coroação de uma carreira longa e difícil – e por aquele ser afinal o jogo por que todos e ele esperaram. Mas para um homem a final é apenas um jogo. E não há país nem glória que pague a má rês de certos insultos. De Zidane, nunca viremos a saber a explicação dos vinte segundos. Mas a explicação está toda na maneira do golpe. Há pessoas melhores que nós.

Humberto Brito
10.7.06

Homeopatia sing along

06 Julho 2006


Quando leio artigos sobre crítica literária escritos por – como direi? – cogumelos, citando ninguém, ou fungo pior, e mais venenoso, só há um remédio para a vontade de responder furiosamente a estes senhores: "I simply remember my favourite things," e depois penso: para quê, rapaz, para quê?
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My Favourite Things

Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II / Canção celebrizada por Julie Andrews, em The Sound of Music, e imortalizada por John Coltrane (sem lyrics, todavia. Mas vale a pena sabê-las de cor, para todos os efeitos terapêuticos.)

Raindrops on roses and whiskers on kittens,
bright copper kettles and warm woolen mittens,
brown paper packages tied up with strings,
these are a few of my favorite things.

Cream colored ponies and crisp apple strudels,
door bells and sleigh bells and schnitzel with noodles.
Wild geese that fly with the moon on their wings.
These are a few of my favorite things.

Girls in white dresses with blue satin sashes,
snowflakes that stay on my nose and eyelashes,
silver white winters that melt into springs,
these are a few of my favorite things.

When the dog bites, when the bee stings, when I'm feeling sad,
I simply remember my favorite things,
and then I don't feel so bad.

(Eu não digo? A procura da excelência está a transformar-me na Maria von Trapp.)

Humberto Brito
6.7.06

Por que é o futebol como a tragédia?

Não é mole, a analogia. Quer dizer, o futebol não é a tragédia versão jornalista. Não é só pelas consequências cardíacas do desporto rei que chamamos a alguns dos seus episódios, como o de ontem e o de sábado passado, trágicos. Ao contrário do que se pensa, no entanto, o jornalista desportivo não é parvo, e no seu vocabulário embora reduzido, não anda longe de uma descrição verdadeira da majestade do futebol.

Quando dizemos “o futebol é tragédia,” devemos usar a palavra no sentido aristotélico. É aliás curioso encontrar em crónicas tão diversas em argúcia como José Mourinho e uma chuteira, o uso bem certo, que vem de um conhecimento empírico das coisas, da palavra catarse aplicada à explicação dos efeitos do futebol. Sim, talvez Aristóteles quisesse dizer uma coisa ligeiramente diferente com a palavra, hoje importada para a psicologia de bolso, mas as comparações com a tragédia não ficariam por aqui. Primeiro exemplo: o futebol mexe com a irracionalidade do povo. E ainda bem.

Tal como a causalidade mais ou menos rígida de um enredo trágico, o futebol, visto de perto, possui tácticas muito precisas, por muito imperceptíveis para o espectador comum. Em todo o caso, o ateniense não precisava de saber poética para sofrer e ao mesmo tempo agradar-se com a contemplação de tragédias. Da mesma maneira, não é preciso um conhecimento aprofundado das escolas tácticas para perder as estribeiras com um golo. Em ambos os casos, aliás, perder as estribeiras abrange toda a camada social, sem olhar à instrução ou às qualidades morais de quem. E se analisássemos melhor a complexidade conceptual do trabalho de ambos os sistemas, comprovaríamos, sem dúvida, que a passagem de um quatro três três a um quatro três dois um, e as compensações respectivas, para não falar em aliar isso às qualidades específicas deste ou daquele plantel, ou da pertinência desta ou daquela substituição, neste ou naquele momento, comprovaríamos, dizia eu, que nada disso fica a dever, em inteligência, a um enredo de Sófocles. E quem diz o contrário, não vê futebol.

Mas a analogia sai reforçada lembrando que o que motiva o interesse de multidões por tragédias e por bola é, em ambos os casos, o facto de se representar, não o que aconteceu, mas o que poderia acontecer. Perdemos em ’84, desta vez podia ser o contrário. A História, aliás, só anima, e nada explica. (Como a estatística, de resto.) Por todo o lado, em estádios, cafés, ecrãs ao ar livre, onde haja cerveja e emissão, milhares de pessoas se aglomeram, e gritam, festejam, blasfemam e são inanes, pela simples razão de que querem assistir, portanto, à representação daquilo que poderia acontecer. Há quem lhe chame a magia do futebol. “Ora, ora, a magia, e do futebol, que disparate!” – comenta o cínico. Muito bem, podemos ser humeanos: não é magia, é a natureza humana.

É da natureza humana (e ocorre-me a interessante metáfora da “moldura humana” – mais um ponto a favor dos jornalistas) agradar-se com a representação do que poderia acontecer. Poderia Portugal derrubar os ingleses, sem Deco e sem Costinha? Poderia Ricardo defender o terceiro penalti? Poderia Cristiano não marcar? Ora, tudo isto poderia até ao apito final – e é disto que o meu povo gosta, mesmo por vezes sabendo que não há a mínima hipótese de as expectativas corresponderem ao que acontece na maior parte das vezes, ou segundo as leis da necessidade – sobretudo num país sempre azarado como o nosso. Os platonistas diriam, em última analise, que esta espécie de brio pelas cores nacionais é patético, bruto ou ridículo, e irracional – ou simplesmente desprovido de sentido estético – e basta olhar para as bandeirinhas. Pois é. Hoje mais do que nunca, é realmente difícil explicar esse apego absurdo pelos nossos.

Muito haveria entretanto a dizer sobre uma comparação pertinente do ponto de vista sociológico, senão até do ponto de vista filosófico, entre tragédias e futebol. Eu fico-me por aqui. Mas tente você imaginar um mundo em que nada mexesse com a irracionalidade das pessoas.

Humberto Brito
6.7.06

Yet not

Humberto Brito
6.7.06

Yet once more

05 Julho 2006


Humberto Brito
5.7.06

Quem está livre

Em pequeno, a elegibilidade social tinha modos curiosos. Gorducho, metido comigo – e muito desastrado – ficava quase sempre para o fim na eleição das equipas de futebol, através de um processo designado passos, em que os dois capitães, normalmente fuços, se afastavam para dois pontos opostos de uma linha imaginária, e depois escolhiam um a um, por ordem decrescente de talento, os seus jogadores. Nunca fui uma contratação milionária, e isso foi trauma nenhum para a minha cabeça criativa. Por um lado, depressa percebi a cotação relativa dos meus pés – vantagem escolar. Por outro lado, isso incitava-me, e cedo despertou em mim ambições privadas. Assim, passei tardes sozinho a chutar bolas contra a parede de uma travessa, que era o meu treinador pessoal. Se o jogo passasse discreto, tudo bem. Se por uma astúcia da física, pelo contrário, eu marcasse golo, só eu sabia que da próxima vez seria escolhido mais depressa. Engano meu.

Da próxima vez, haveria ímpar miúdos, e como desde garotos somos homens em matéria política, a distribuição das equipas era, como mandam as regras do jogo, equitativa. Cinco para um lado, cinco para outro, e tu (eu) esperas aí. Democracia de atl, nada de grave. Quando entrava, era para a baliza; e na baliza, defendia as cores de um país, que convertia em arranhões e nódoas negras, nas quais em casa me era barrado trombocil, no pavor de aquilo dar em cancro. (O Marco, meu vizinho de baixo, andou durante dois anos com a canela partida, e o diagnóstico, dois anos mais tarde, e ele cada vez mais na baliza, foi católico. Queriam cortar-lhe a perna. Daí para a frente, passou a haver sempre trombocil na farmácia lá de casa, para as caneladas.) Mas nenhuma pomada impediu que da próxima vez, engano meu, apesar dos golos, eu ficasse de fora.

O mesmo sucedia com a apanhada. O mesmo com a cabra-cega. O mesmo com as escondidas, o quarto escuro e o mata e a entrada à estátua e o bate o pé. Não se fala mais sobre isso. A verdade é que a síndrome um-dó-li-tá me acompanha desde a infância, e uma pessoa continua a chutar bolas contra a parede, por assim dizer, e continua treinada pela parede – o meu incitador pessoal. Desenvolvemos, é certo, as nossas qualidades naturais, e é no desempenho delas que prosseguimos. Mas as regras do jogo são, dependentemente, mais simples: tímidos não entram. Falar em público, por exemplo, é condição necessária, e sabe Deus o que eu odeio falar em público. Mas não há remédio. Não há pomada contra fuços. Apetece dizer que a glória é dos gladiadores e dos mimos. Engano meu.

Uma pessoa aguenta isto até certo ponto, em que percebe que não depende mais de qualquer astúcia. Depois, percebe que nada se segue de ela mesma apontar o dedo a certas cabeças. Alguém pode dizer – um, fora! – dó, fora! – li, fora! – tá, fora! – e nada. Alas, já não estamos no jardim-escola, senhores. Na vida real ninguém “fora”. Na vida real, quem está livre, livre está.

Humberto Brito
5.7.06